Revolução Mexicana: dez anos de guerra civil e a Constituição de 1917
Entre 1910 e 1920 o México deixou para trás o longo governo de Porfírio Díaz e atravessou uma guerra civil de vários teatros. A Constituição de 1917 fixou terra, trabalho e educação em artigos que ainda estruturam o país — mas não encerrou os combates nem entregou o governo a Emiliano Zapata ou a Francisco Villa.
Ficha do processo
- Onde
- Estados Unidos Mexicanos, com teatros distintos no Norte, no Centro e no Morelos
- Quando
- De novembro de 1910 à consolidação do governo de Álvaro Obregón em 1920
- Tipo de ruptura
- Revolução social e guerra civil com vários centros de comando
- Resultado principal
- Fim do porfiriato, Constituição de 1917 e um novo Estado revolucionário de partido emergente
- Documento central
- Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos, promulgada em 5 de fevereiro de 1917 em Querétaro
Contexto histórico
No início do século XX o México era um país agrário com ilhas de modernização: ferrovias, minas, petróleo e cidades ligadas ao mercado atlântico. Porfírio Díaz governava, com um intervalo, desde 1876. O porfiriato ofereceu ordem, crédito externo e crescimento de exportações. Concentrou terra, reforçou o poder dos chefes locais e deixou sem resposta política a sucessão do próprio Díaz, já octogenário em 1910.
A propriedade da terra era o nó. Comunidades camponesas e povos indígenas haviam perdido ou visto reduzir seus ejidos diante da expansão de haciendas e de companhias. No Norte, ranchos e interesses mineiros criaram outro tipo de sociedade, mais móvel e mais armada. Nas cidades, uma classe média letrada e um operariado ferroviário e têxtil liam jornais de oposição e formavam clubes. Não havia um México só à espera de um caudilho.
A sucessão presidencial de 1910 tornou-se a fresta institucional. Díaz declarou a um jornalista norte-americano, em 1908, que o país estava pronto para a democracia; no ano seguinte lançou-se a mais uma reeleição. Francisco I. Madero, proprietário do Norte e crítico da reeleição indefinida, disputou a campanha, foi preso e, no exílio, redigiu o Plano de San Luis, datado de 5 de outubro de 1910, que chamava à insurreição em 20 de novembro.
O que se seguiu não foi a execução linear desse plano. Foi uma década em que coalizões se formaram para derrubar um governo e se desfizeram ao tentar construir o seguinte. Alan Knight descreveu esse conjunto como uma grande revolução social feita de teatros regionais. Essa é a moldura mais segura para ler os dez anos.
Antecedentes
Antes de 1910 já havia oposição organizada. O Partido Liberal Mexicano de Ricardo Flores Magón, no exílio, publicava Regeneración e falava de terra e de trabalho de um modo mais radical do que o maderismo. Greves em Cananea (1906) e Rio Blanco (1907) mostraram um operariado disposto a confrontar empresas e jefes. Essas experiências não “causaram” 1910 sozinhas; alimentaram o vocabulário e as redes que a crise sucessória pôs em movimento.
No Morelos, a pressão das usinas de açúcar sobre as comunidades aldeãs vinha de décadas. Emiliano Zapata emergiu como chefe local dessa queixa, não como ideólogo nacional. No Chihuahua e no Durango, homens como Pascual Orozco e Francisco Villa articularam ranchos, presidiários libertados e lealdades pessoais em forças que o governo federal subestimou. A geografia da revolução — serras, ferrovias, fronteira com os Estados Unidos — importa tanto quanto os manifestos.
O Tratado de Ciudad Juárez, em maio de 1911, encerrou a primeira fase: Díaz renunciou e partiu para o exílio. Francisco León de la Barra assumiu um interinato e Madero foi eleito. A rapidez da queda do porfiriato criou a ilusão de que a crise era só eleitoral. Zapata, já em 1911, denunciou no Plano de Ayala, de 28 de novembro, que o governo maderista não devolvia terras. A revolução social e a revolução política começaram a se separar.
Os fundos do Arquivo Geral da Nação, em México, preservam a correspondência dessa cisão: telegramas de chefes, queixas de povos e a dificuldade de um presidente civil para desarmar quem o havia posto no poder.
Causas
Não existe uma causa única que dê conta de Morelos e de Sonora ao mesmo tempo. Há um feixe que a pesquisa trata como consolidado.
- Concentração fundiária e ataque aos bens comunais. A terra não era metáfora: era título, água e povoado.
- Esgotamento sucessório do porfiriato. Um regime pessoal sem mecanismo credível de alternância tornou a eleição de 1910 um beco.
- Modernização desigual. Ferrovias e exportação enriqueceram enclaves e deslocaram populações sem criar cidadania correspondente.
- Redes regionais de chefia. A capacidade de levantar homens no Norte e no Centro antecedeu qualquer partido nacional revolucionário.
- Intervenção e fronteira. O reconhecimento diplomático norte-americano, o embargo de armas e a expedição punitiva de 1916 condicionaram campanhas internas sem as explicar por completo.
Chamar o processo de “revolta camponesa” captura Morelos e parte do Centro. Deixa de fora o constitucionalismo sonorense, o operariado das cidades, os intelectuais maderistas e a División del Norte, que era um exército, não uma milícia de aldeia. A Constituição de 1917, com artigos sobre educação laica, propriedade originária da Nação e direitos do trabalho, só se entende se esses grupos forem mantidos na narrativa.
A pergunta útil não é “quem foi o verdadeiro revolucionário”. É quais coalizões, em cada ano, controlaram o Estado e quais ficaram com um programa sem ministério.
Grupos envolvidos
Os nomes famosos correspondem a coalizões, não a governos nacionais duradouros.
Madero reuniu opositores anti-reeleicionistas, parte da elite nortenha e uma esperança urbana de legalidade. Não controlou Zapata nem, por muito tempo, Orozco. Após o golpe de fevereiro de 1913 — a Decena Trágica —, Victoriano Huerta dissolveu essa experiência parlamentar e provocou a coalizão constitucionalista de Venustiano Carranza, governador de Coahuila, sob o Plano de Guadalupe de 26 de março de 1913. Álvaro Obregón, de Sonora, tornou-se o organizador militar mais eficaz desse campo.
Villa comandou a División del Norte, força que venceu batalhas decisivas em 1914 e perdeu o centro da guerra em 1915, sobretudo em Celaya, diante de Obregón. Zapata sustentou no Morelos o Exército Libertador do Sul e o programa do Plano de Ayala. Em dezembro de 1914 Villa e Zapata ocuparam a Cidade do México e foram fotografados no Palácio Nacional. Não instalaram um governo nacional estável. A Convenção de Aguascalientes, da qual saíra uma pretensão de soberania alternativa à de Carranza, não produziu administração comparável à que o constitucionalismo reconstituiu a partir de Veracruz e, depois, de Querétaro.
Havia ainda operários da Casa del Obrero Mundial, que em 1915 formaram batalhões vermelhos ao lado de Carranza; católicos e velhos porfiristas; e, na diplomacia, as administrações de William Howard Taft e Woodrow Wilson, cujo reconhecimento ou recusa pesou sobre Huerta e sobre Carranza. Friedrich Katz mostrou, no caso de Villa, o quanto a fronteira e o mercado norte-americanos integravam a política revolucionária. Reduzir o elenco a dois cavaleiros é escolher um cartaz.
Principais acontecimentos
Em 20 de novembro de 1910 a insurreição maderista começa de modo desigual. Em maio de 1911 Díaz renuncia; Madero assume no fim do ano. O Plano de Ayala, em novembro, abre a frente agrária contra o novo governo. Em fevereiro de 1913 Huerta depõe o presidente; Madero e José María Pino Suárez são mortos. O constitucionalismo declara-se em armas.
- 1914. Huerta deixa o poder. As forças de Villa, Zapata e dos constitucionalistas entram em conflito entre si. A Convenção de Aguascalientes tenta, sem êxito duradouro, um governo comum.
- Dezembro de 1914. Villa e Zapata na capital — ocupação simbólica, não posse administrativa do país.
- 1915. Obregón derrota Villa em Celaya e em campanhas seguintes. Carranza reconquista o centro político.
- 1916. Incursão villista a Columbus, no Novo México, e expedição de John J. Pershing em território mexicano; o episódio internacionaliza a guerra sem resolvê-la.
- 5 de fevereiro de 1917. Promulgação da Constituição em Querétaro, com os artigos 3º, 27 e 123 como núcleo social do texto.
- 10 de abril de 1919. Morte de Zapata em Chinameca.
- 1920. Rebelião de Agua Prieta; morte de Carranza; ascensão de Obregón, habitualmente tomada como termo da fase militar aberta.
Villa aceitou um acordo de retiro em 1920 e foi morto em 1923, já fora do decênio central. A data de 1920 não é mágica: há quem estenda a “revolução” até as reformas de Lázaro Cárdenas, nos anos 1930. O que 1920 encerra, com razoável consenso, é a guerra civil generalizada pelo controle do Executivo.
A década foi letal. Estimativas demográficas — combatentes, civis, fome e a influenza de 1918 — circulam com frequência na casa do milhão ou acima, e variam conforme o recorte. Não há um censo de guerra inconteste. Este guia não descreve batalhas nem execuções. Registra que a Constituição de 1917 nasceu no interior de um país ainda em armas, e que os totais humanos continuam em debate entre demógrafos e historiadores.
Consequências imediatas
A Constituição de 1917 não foi um epílogo. Foi um programa escrito enquanto a guerra ainda tinha frentes abertas. O artigo 27 declarou a Nação proprietária originária do solo e das águas e abriu a porta jurídica da reforma agrária e do controle sobre o subsolo. O artigo 123 fixou jornada, descanso e direitos coletivos do trabalho em um texto constitucional, o que era incomum no mundo da época. O artigo 3º afirmou educação laica e, na prática, um Estado que não devolvia à Igreja o lugar do porfiriato tardio.
Aplicar esses artigos levou anos e, em alguns ramos, décadas. Carranza foi um constitucionalista mais cauteloso na terra do que o texto sugeria. Obregón e Plutarco Elías Calles negociaram com sindicatos, com agraristas e com embaixadas. A Igreja e o Estado voltariam a chocar-se na Guerra Cristera, já nos anos 1920, o que mostra que 1917 abriu frentes em vez de fechá-las.
Politicamente, o velho aparato porfirista não voltou. No seu lugar cresceu um Estado que falava em nome da Revolução e que, ao longo da década de 1920, caminhou para o partido dominante — o ancestral do PRI. Essa institucionalização é consequência, não causa, dos dez anos de guerra.
No campo, a partilha e a reconstituição de ejidos avançaram de modo desigual: mais no Morelos do que em muitas zonas do Norte. A geografia da reforma repetiu a geografia da revolução.
Impactos de longo prazo
A Carta de 1917 tornou-se referência continental de constitucionalismo social. Reformas agrárias e leis do trabalho em outros países latino-americanos dialogaram com esse precedente, mesmo quando não o copiaram. No México, o artigo 27 estruturou a disputa pelo petróleo até a expropriação de 1938 e, muito depois, as reformas que reabriram o setor.
A memória oficial — murais, livros didáticos, o calendário cívico de 20 de novembro — transformou uma guerra fragmentada em epopeia nacional. Essa operação cultural, estudada por uma historiografia crítica das últimas décadas, não apaga os arquivos: Zapata e Villa continuam maiores na imagem do que foram no governo efetivo do país. O Estado que sobreviveu foi o dos sonorenses e de seus herdeiros partidários.
Para a história social, o legado mais concreto é a combinação de direitos agrários, laicidade escolar e reconhecimento constitucional do trabalho. Para a história política, é o longo predomínio de um partido que reivindicava a Revolução como origem. As duas heranças se separam no tempo: a primeira está no texto de 1917; a segunda se consolidou depois de 1920.
Alan Knight descreve a Revolução Mexicana como uma grande revolução social feita de vários teatros regionais, e não como um único levante camponês com um centro de comando e um governo partilhado entre Zapata e Villa.
Interpretações historiográficas
A bibliografia passou de uma história oficial de heróis a uma história de regiões, de classes e de arquivos municipais.
John Womack, em Zapata and the Mexican Revolution, reconstituiu o Morelos a partir das comunidades, não do panteão. Friedrich Katz, em The Life and Times of Pancho Villa, devolveu Villa a uma política transfronteiriça e a uma División que era instituição, não lenda. Alan Knight, em dois volumes, recusou tanto o reducionismo camponês quanto a tese de que tudo não teria passado de uma luta de elites. Há, ainda, uma linha que enfatiza o Estado revolucionário posterior — como se o sentido de 1910–1920 só se completasse em Cárdenas — e outra que prefere cortar em 1920 para não confundir guerra civil com regime.
O Arquivo Geral da Nação e as edições da Constituição de 1917 permitem checar o que é texto e o que é emenda posterior. Muitos dispositivos atuais do artigo 27 não são os de Querétaro. Ler 1917 como se fosse o texto vigente é um anacronismo frequente.
O consenso mínimo é duplo: a Revolução foi mais do que uma revolta agrária, e a Constituição não foi o ponto final dos combates. Tudo o que se acrescentar a essas duas frases exige região, ano e fundo de arquivo.
Mitos e equívocos
Três imagens de almanaque organizam o equívoco corrente. As três se corrigem com datas de posse e com o texto de Querétaro.
Corrigi-las não apaga Zapata nem Villa. Coloca-os no mapa em que de fato mandaram — e no mapa em que não mandaram.
- “Zapata e Villa governaram o México” Ocuparam a capital no inverno de 1914–1915 e não sustentaram um Executivo nacional. O governo que promulgou a Constituição e recompôs o Estado foi o constitucionalista de Carranza, depois disputado e herdado pelos sonorenses.
- “A Constituição de 1917 encerrou a revolução” O texto é de fevereiro de 1917. Zapata morreu em 1919, Carranza em 1920, e a guerra generalizada só então recuou. A Carta é um marco jurídico no interior do conflito, não o apito final.
- “Foi só uma revolta camponesa” O Morelos foi camponês e agrário. O constitucionalismo de Sonora, o maderismo urbano, os ferroviários e a División del Norte não cabem nessa frase. A própria Constituição mistura terra, trabalho fabril e educação estatal.
- Madero era o candidato dos zapatistas Madero e Zapata romperam em 1911. O Plano de Ayala acusa o presidente de traição à partilha da terra. São alianças sucessivas, não uma chapa única.
- O artigo 27 de hoje é o de 1917 O núcleo da propriedade originária da Nação vem de Querétaro. O detalhe vigente passou por reformas posteriores, inclusive no fim do século XX. Vale ler o texto histórico e o texto atual como documentos distintos.
Fontes consultadas
Este guia foi elaborado a partir de acervos públicos mexicanos, do texto constitucional de 1917 e de monografias acadêmicas de referência. Consulte também a nossa página de fontes e metodologia.
As cifras demográficas da década são tratadas como estimativas. Os planos e a Constituição foram lidos em edições documentais, não em resumos escolares.
- Archivo General de la Nación (México) — fundos do porfiriato, da revolução e da correspondência de chefes regionais.
- Constitución Política de los Estados Unidos Mexicanos, promulgada em Querétaro em 5 de fevereiro de 1917 — texto original dos artigos 3º, 27 e 123.
- Plano de San Luis, 5 de outubro de 1910 — manifesto de Francisco I. Madero.
- Plano de Ayala, 28 de novembro de 1911 — programa agrário zapatista.
- Plano de Guadalupe, 26 de março de 1913 — pronunciamento constitucionalista de Carranza.
- Alan Knight. The Mexican Revolution. Cambridge University Press, 2 vols.
- John Womack Jr. Zapata and the Mexican Revolution. Alfred A. Knopf.
- Friedrich Katz. The Life and Times of Pancho Villa. Stanford University Press.
- Adolfo Gilly. La revolución interrumpida — interpretação clássica de esquerda, usada aqui como leitura, não como ata.
- Charles C. Cumberland e John Mason Hart — sínteses e estudos sobre trabalho, petróleo e investimento estrangeiro no período.
- Diario de los Debates do Congresso Constituinte de Querétaro, 1916–1917.
- Acervo da Secretaría de Gobernación e publicações do Instituto Nacional de Estudios Históricos de las Revoluciones de México (INEHRM).