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Revoluções sociais Europa · 1871

Comuna de Paris: os setenta e dois dias de 1871 e o debate que eles nunca encerraram

Entre 18 de março e 28 de maio de 1871 Paris governou-se a si mesma no vácuo de uma derrota nacional. A Comuna durou setenta e dois dias, votou um programa municipal e foi derrotada pelo governo de Versalhes. O que ela foi — e o que não foi — continua a dividir arquivos e memórias.

Composição editorial sóbria com pedras de calçada empilhadas, uma faixa municipal e o perfil de uma colunata, nas cores vinho, azul-escuro e bege, sem pessoas feridas.
A pedra, a faixa e a colunata: a Comuna foi um governo de cidade em tempo de derrota nacional, não um império operário. Ilustração editorial original.

Ficha do processo

Onde
Paris, em tensão com o governo estabelecido em Versalhes
Quando
De 18 de março a 28 de maio de 1871 — setenta e dois dias
Tipo de ruptura
Revolta municipal e experiência de autogoverno urbano em contexto de guerra e de mudança de regime
Resultado principal
Derrota militar pela Assembleia e pelo Executivo de Adolphe Thiers; repressão e deportações; legado programático duradouro
Documento central
Declaração ao povo francês e decretos da Comuna (separação entre Igreja e Estado, moratórias, trabalho noturno das padarias)

Contexto histórico

A Comuna nasceu do cerco de Paris e da queda do Segundo Império. Em 2 de setembro de 1870 Napoleão III foi capturado em Sedan; em 4 de setembro proclamou-se a República. A capital foi cercada de setembro de 1870 a janeiro de 1871. Fome, bombardeio e a Guarda Nacional inchada de parisienses armados criaram uma cidade que já não obedecia automaticamente ao que restava de Estado.

O armistício de 28 de janeiro de 1871 e as eleições de 8 de fevereiro produziram uma Assembleia Nacional com maioria monarquista e rural, reunida primeiro em Bordéus e depois associada a Versalhes. Paris, que votara à esquerda republicana e socialista, leu o resultado como ameaça de restauração e como abandono. Adolphe Thiers, chefe do poder executivo, passou a negociar a paz e a desarmar a capital.

O objeto imediato do 18 de março foram os canhões da Guarda Nacional, pagos em parte por subscrição parisiense e concentrados em Montmartre e em outros outeiros. A tentativa de recuperá-los sem um acordo político transformou uma operação de polícia em ruptura de soberania. Os Archives de Paris e os relatórios militares de Versalhes coincidem no essencial: a tropa falhou, dois generais foram mortos pela multidão e o governo evacuou a cidade.

Setenta e dois dias depois, a mesma tropa voltou pela porta do oeste. Entre uma data e outra houve eleição municipal, decretos e um debate europeu que ainda não se encerrou. A duração curta é parte do fato, não um detalhe.

Antecedentes

Paris chegava a 1870 com uma tradição de jornadas — 1789, 1830, 1848 — e com uma Guarda Nacional que era milícia cidadã tanto quanto força de ordem. O urbanismo de Georges-Eugène Haussmann havia cortado avenidas largas e deslocado populações para os arrondissements externos, onde o voto republicano e o ofício manual se concentravam. Essa geografia eleitoral e social pesou em março.

A Associação Internacional dos Trabalhadores tinha seções em Paris, mas estava longe de ser o governo paralelo da cidade. Blanquistas, proudhonianos, jacobinos republicanos e socialistas sem etiqueta conviviam em clubes e comitês de bairro. Jacques Rougerie e Stewart Edwards insistiram nesse mosaico: a Comuna foi uma coalizão de tradições do século XIX francês, não a filial de um único livro.

A derrota militar acelerou o que a vida associativa já ensaiava. Durante o cerco, os clubes discutiram a continuação da guerra e a desconfiança em relação aos generais. A capitulação e a Assembleia rural confirmaram o receio. Quando Thiers enviou tropas aos canhões, o Comitê Central da Guarda Nacional — eleito por batalhões, não por um partido — tornou-se, por algumas horas, o único poder efetivo em Paris.

Em 26 de março elegeram-se os membros da Comuna; em 28 ela foi proclamada na Praça do Hôtel de Ville. O intervalo entre o 18 e o 28 mostra que houve, sim, um esforço de legalidade municipal, por mais contestada que fosse em Versalhes.

Causas

A causa imediata é estreita e documentada: a tentativa de retomar os canhões e a recusa parisiense de entregar as peças e a cidade a um executivo que considerava hostil. As causas mediadas são mais largas.

  • Derrota e cerco. Uma capital armada e faminta não aceitou ser desarmada por uma assembleia eleita sob ocupação e armistício.
  • Ruptura entre Paris e o país legal. O mapa do voto de fevereiro de 1871 é o melhor gráfico dessa cisão.
  • Tradição municipal republicana. A palavra “comuna” nomeava o autogoverno da cidade, com eco de 1792–1794, não um tratado de filosofia alemã.
  • Questão social urbana. Aluguéis atrasados pelo cerco, oficinas paradas e o medo do desemprego dos guardas nacionais politizaram o cotidiano.
  • Vazio de Estado. Entre a fuga dos ministérios e a eleição de 26 de março, a cidade teve de inventar uma autoridade.

Robert Tombs descreveu a Comuna menos como um Estado operário antecipado e mais como uma revolta municipal republicana. Essa ênfase não apaga as medidas sociais; situa-as no quadro de uma cidade que se recusou a ser administrada de fora. Karl Marx, em A guerra civil em França, leu o mesmo episódio como o primeiro governo da classe operária. É uma interpretação contemporânea de enorme influência — e é interpretação, não ata da composição da Assembleia comunal.

As duas frases podem conviver no mesmo guia se se distinguir fato e leitura. O fato é a duração, a eleição, os decretos e a derrota. As leituras começam no dia seguinte ao 28 de maio.

Grupos envolvidos

Não houve um “partido da Comuna” no sentido do século XX. Houve listas, clubes e sensibilidades.

No Conselho da Comuna sentaram-se proudhonianos atentos ao mutualismo e à autonomia da oficina; blanquistas favoráveis a um poder mais concentrado e à ofensiva contra Versalhes; neo-jacobinos que falavam a língua de 1793; membros da Internacional; e republicanos de bairro sem doutrina fechada. Mulheres organizaram clubes, oficinas e a União das Mulheres para a Defesa de Paris, com figuras como Nathalie Lemel e, na memória posterior, Louise Michel — esta última mais presente na lenda e no processo judicial do que na mesa executiva. O Comitê Central da Guarda Nacional e o Conselho eleito nem sempre coincidiram; essa tensão interna é um dos temas de Lissagaray, cronista e participante.

Do outro lado, Thiers, a Assembleia de maioria monarquista e o Exército reorganizado em Versalhes — reforçado, após a paz, por prisioneiros de guerra devolvidos — formaram o polo da ordem nacional. A Prússia, que ocupava fortes a leste, observou e, no essencial, deixou o governo francês resolver o conflito interno, o que condicionou o cerco da cidade pelos próprios franceses.

Artesãos, empregados, professores e uma fração do operariado industrial — Paris ainda era mais oficina do que usina — deram à Comuna a base social que Edwards tentou medir. Não foi “o povo” abstrato nem um comitê de filósofos. Foi uma cidade eleitoralmente à esquerda do país.

Principais acontecimentos

A cronologia cabe em uma estação. Por isso mesmo, cada semana alterou o equilíbrio entre decreto e defesa.

Em 18 de março a operação de Montmartre fracassa e o governo deixa Paris. Em 26 de março há eleições. Em 28 a Comuna é proclamada. Nos dias seguintes o Conselho vota a remissão de aluguéis do período do cerco, a proibição do trabalho noturno nas padarias, a separação entre Igreja e Estado, a laicização de escolas, a possibilidade de revogação dos eleitos e a suspensão da venda de objetos empenhados em casas de penhor. São medidas de cidade em emergência, redigidas e afixadas, não um programa oculto.

  • Abril. Confrontos na periferia; a Comuna tenta, sem êxito decisivo, uma sortida contra Versalhes. Cria-se um Comitê de Salvação Pública, o que reabre a velha divisão entre “maioria” jacobina-blanquista e “minoria” mais federalista.
  • 16 de maio. Derrubada da Coluna Vendôme, símbolo da glória imperial — gesto político e visual, não uma batalha.
  • 21–28 de maio. Semana sangrenta: as tropas de Versalhes entram por Saint-Cloud e reconquistam a cidade bairro a bairro. A Comuna deixa de existir como governo no dia 28, no último reduto do leste parisiense.

Houve fuzilamentos de reféns por alguns comunardos e uma repressão de Estado em escala muito maior do outro lado. Este guia registra os dois fatos e não descreve nenhum deles. A assimetria da violência final é o ponto sobre o qual Tombs e seus críticos mais discutem números — não a existência da repressão.

Sobre números e violência

O saldo da semana de 21 a 28 de maio é o número mais disputado do episódio. A memória socialista e muitas sínteses do século XX falaram em cerca de vinte mil mortos. Robert Tombs, com base em registros de cemitérios, hospitais e exumações, propôs uma faixa bem mais baixa, da ordem de seis a sete mil e quinhentos. Outros historiadores contestam o recuo. Deportações para a Nova Caledônia e condenações pelos conselhos de guerra são mais fáceis de documentar. Tratamos o total de mortos como estimativa em aberto e não descrevemos a reconquista rua a rua.

Consequências imediatas

Paris voltou à administração do Estado nacional. Lei marcial, prisões e processos esvaziaram clubes e redações. Milhares de condenados seguiram para o exílio penal no Pacífico; outros fugiram para a Bélgica, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. A anistia só chegaria, de forma ampla, em 1880.

A Terceira República, paradoxalmente, consolidou-se sobre a derrota da Comuna e sobre a impossibilidade de restaurar a monarquia: os pretendentes se dividiram, e o regime republicano tornou-se, ao longo da década de 1870, a solução de compromisso do país legal. Thiers, que esmagou Paris, foi também o homem que negociou a evacuação alemã e o pagamento da indenização de guerra.

No plano municipal, várias medidas da Comuna — laicidade escolar, calendário do trabalho de padaria, discussão sobre aluguéis — reapareceram, diluídas, em debates da República posterior. Não houve restauração pura do Paris de 1869. Houve vigilância e, ao mesmo tempo, absorção seletiva de reformas.

Na Internacional, o episódio acelerou a cisão entre marxistas e bakuninistas, cada qual atribuindo à Comuna uma lição diferente. Esse debate é consequência intelectual, não ata da Hôtel de Ville.

Impactos de longo prazo

Poucos governos de dois meses geraram tantas filiações. Partidos operários europeus, a social-democracia, o anarquismo e, depois, o leninismo citaram a Comuna como precedente — para exaltá-la ou para dizer o que lhe teria faltado (um partido, um banco central tomado, uma ofensiva mais cedo). Essa posteridade diz mais sobre o século XX do que sobre março de 1871.

Em Paris, a memória material deslocou-se para o Mur des Fédérés, no Père-Lachaise, e para o Musée d'Art et d'Histoire de Saint-Denis, que conserva objetos e imagens do episódio. O calendário municipal e as placas de rua reativam 1871 em ciclos políticos distintos, da Terceira República ao presente. A cidade lembra; não repete o governo de setenta e dois dias.

Para a história das ideias, a Comuna fixou um problema: até onde uma cidade pode reivindicar soberania contra um Estado nacional nascido de eleição e de derrota. Esse problema reaparece, em outras escalas, em revoltas urbanas posteriores. Nenhuma delas é a Comuna. Todas herdam o vocabulário que 1871 tornou disponível: eleitos revogáveis, laicidade, milícia cidadã, decreto de emergência social.

Robert Tombs descreve a Comuna menos como um Estado operário antecipado e mais como uma revolta municipal republicana, cujo saldo letal continua em disputa entre os arquivos e a memória.

Interpretações historiográficas

Três camadas de leitura se superpõem e não se cancelam se forem nomeadas como o que são.

A primeira é contemporânea e militante. Marx, em A guerra civil em França, escreveu um texto de combate para a Internacional: a Comuna teria sido a forma enfim encontrada da República social, destruída por Versalhes. Lissagaray, em Histoire de la Commune de 1871, ofereceu a crônica do participante, indispensável e parcial. A segunda camada, do século XX, transformou 1871 em origem sagrada ou em aviso contra a guerra civil urbana. A terceira, acadêmica, de Rougerie a Tombs e a Edwards, reconstituiu listas de eleitos, ofícios dos comunardos, geografia dos votos e, no caso de Tombs, os registros da morte. O Musée de Saint-Denis e os Archives de Paris alimentam essa terceira camada com objetos e atas, não com slogans.

O ponto mais vivo do debate atual não é “se a Comuna foi de esquerda”. É o que ela pretendeu ser: governo da França a partir de Paris, ou governo de Paris à espera de uma federação de comunas? Os textos da Declaração ao povo francês pendem à segunda hipótese — uma França de municípios republicanos —, o que afasta tanto o Estado marxista centralizado quanto o motim sem programa. Há, ainda, a discussão quantitativa da semana sangrenta, já referida: ela altera a ênfase da memória, não a derrota política.

Ler Marx como fonte primária de interpretação, e não como notário da Comuna, é o procedimento que este guia adota. O mesmo vale para Thiers e para a imprensa de Versalhes. Cada um descreve o adversário. O arquivo municipal descreve decretos, eleições e enterros.

Mitos e equívocos

Três frases feitas atravessam manuais e redes. As três tropeçam na duração, na composição do Conselho e na lista de decretos.

Corrigi-las não é “diminuir” a Comuna. É recusar-lhe um disfarce que seus próprios eleitos não usaram.

  • “A Comuna foi um governo marxista” Marx interpretou o episódio depois e de fora. No Conselho havia proudhonianos, blanquistas, jacobinos e internacionalistas; não havia um partido marxista no governo nem um programa redigido em Londres. Tratar 1871 como aplicação de um livro inverte a cronologia.
  • “Durou anos” Durou setenta e dois dias, de 18 de março a 28 de maio de 1871. A posteridade durou um século e meio; o governo, duas estações. Confundir as duas durações é o erro mais simples e o mais frequente.
  • “Foi só um motim parisiense sem programa” Houve eleição em 26 de março, proclamação em 28 e uma série de decretos afixados: laicidade, aluguéis, padarias, revogação dos eleitos, penhores. Pode-se discutir o alcance. Não se pode dizer que não havia texto.
  • A Comuna governou a França Governou Paris — e nem sempre o conjunto dos arrondissements com a mesma força. Versalhes falava em nome da Assembleia nacional. A Declaração ao povo francês apostava numa federação de comunas, não numa ditadura da capital sobre o país.
  • Marx esteve em Paris em 1871 Não esteve. Escreveu de Londres, a partir de relatórios da Internacional e da imprensa. A força do texto é interpretativa; a presença física é um mito biográfico.

Fontes consultadas

Este guia foi elaborado a partir de arquivos municipais parisienses, museus de história da Comuna e bibliografia acadêmica de referência. Consulte também a nossa página de fontes e metodologia.

Marx é citado como fonte primária de interpretação contemporânea, não como registro notarial dos decretos. Os totais da semana sangrenta seguem o debate entre a memória clássica e a revisão de Tombs, sem escolha de um número fechado.

  1. Archives de Paris — atas municipais, eleições de 26 de março de 1871 e fundos da Guarda Nacional.
  2. Musée d'Art et d'Histoire de Saint-Denis — coleções sobre a Comuna e a memória dos federados.
  3. Karl Marx. The Civil War in France (A guerra civil em França), 1871 — interpretação contemporânea para a Internacional, não ata dos decretos.
  4. Prosper-Olivier Lissagaray. Histoire de la Commune de 1871.
  5. Robert Tombs. The Paris Commune 1871 e o artigo How Bloody Was La Semaine Sanglante of 1871? A Revision, The Historical Journal.
  6. Jacques Rougerie. Estudos e repertórios sobre os comunardos e a composição social da Comuna.
  7. Stewart Edwards. The Communards of Paris, 1871.
  8. Declaração ao povo francês e decretos da Comuna (abril–maio de 1871) — edições documentais de referência.
  9. Archives nationales (França) — fundos do Executivo de Thiers e da Assembleia de 1871.
  10. Cimetière du Père-Lachaise — Mur des Fédérés, como lugar de memória (não como estatística).
  11. Quentin Deluermoz e obras recentes de síntese sobre 1870–1871, para o enquadramento da guerra franco-prussiana.
  12. Association Internationale des Travailleurs — circulares e atas de 1871 relativas a Paris, nas edições documentais da Internacional.

Publicado em 10 de setembro de 2026. Última revisão editorial em 10 de setembro de 2026. Identificou um erro de data, atribuição ou interpretação? Consulte a política de correções e escreva para a redação.

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